Novembro Azul alerta para riscos e diagnóstico tardio do câncer de próstata na Bahia

Por Nossa Hora
Quarta-Feira, 04 de Novembro de 2026 às 08:01
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A Bahia deve registrar 6.540 novos casos de câncer de próstata em 2026, o equivalente a aproximadamente 18 diagnósticos por dia. Em Salvador, a estimativa é de 1.070 ocorrências ao longo do ano. Os números são do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e colocam o estado entre os quatro com maior quantidade de casos no país, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O cenário chama atenção durante o Novembro Azul, campanha dedicada à conscientização sobre a saúde masculina e à importância do diagnóstico precoce.

No Brasil, a estimativa é de 77.920 novos casos da doença em 2026. O câncer de próstata é o tipo de tumor mais frequente entre os homens brasileiros, depois do câncer de pele não melanoma. Na Bahia, além da quantidade expressiva de ocorrências, a preocupação envolve a maior vulnerabilidade dos homens negros, grupo que apresenta maior predisposição ao desenvolvimento da doença e a formas mais agressivas do tumor.

A dimensão do problema também pode ser observada pelas taxas de incidência. Segundo o Inca, a Bahia apresenta uma taxa bruta estimada de 90,43 casos por 100 mil homens e uma taxa ajustada de 63,16. Em Salvador, os indicadores são de 88,66 e 70,27, respectivamente. A taxa bruta considera a população da localidade, enquanto a ajustada utiliza uma população padrão como referência, permitindo comparações entre regiões com diferentes estruturas etárias. Os dados mostram que quantidade absoluta de casos e incidência proporcional são indicadores distintos.

Idade

A idade avançada e o histórico familiar estão entre os principais fatores de risco. Homens que tiveram pai ou irmão diagnosticados com câncer de próstata precisam ter atenção especial, já que a presença da doença em parentes de primeiro grau aumenta significativamente as chances de desenvolver o tumor. A ancestralidade africana também está associada a uma maior incidência e a um comportamento potencialmente mais agressivo da doença.

De acordo com o oncologista André Bacellar, da Oncoclínicas, esses fatores precisam ser considerados durante a avaliação médica. "Os principais fatores de risco são quem tem histórico familiar da doença, a idade avançada. Quanto mais velho, maior o risco de ter a doença e, aparentemente, uma frequência um pouco maior em afrodescendentes", explica.

A preocupação é ainda maior na Bahia, que concentra a maior população negra do país. Para Bacellar, homens negros precisam receber atenção diferenciada, principalmente porque podem desenvolver tumores mais agressivos e em idades mais precoces. "Os homens negros têm uma tendência de ter um câncer mais agressivo, aparentemente, e de maneira mais precoce. Então, o cuidado deve ser dobrado nessa população, inclusive começando o seu rastreamento um pouco mais cedo, aos 45 anos", afirma.

Um dos principais desafios no enfrentamento da doença é o diagnóstico tardio. Isso acontece, principalmente, porque o câncer de próstata costuma evoluir sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Quando as primeiras manifestações aparecem, o tumor pode já estar em um estágio mais avançado, reduzindo as possibilidades de intervenções menos complexas.

Alerta

Entre os sinais de alerta estão dificuldade para iniciar o jato urinário, demora para conseguir urinar, diminuição da força do jato, aumento da frequência de idas ao banheiro, especialmente durante a noite, e sensação de urgência urinária. A presença de sangue na urina ou no sêmen também exige investigação. Em situações mais avançadas, podem surgir dores na região pélvica e nos ossos, especialmente quando há disseminação da doença para outras partes do organismo.

"Os sinais de alerta geralmente são sintomas urinários, seja um desconforto para iniciar o jato, uma dificuldade para urinar de imediato, uma urgência urinária, às vezes precisa ir ao banheiro a todo momento, a presença de sangue na urina, sangue na ejaculação e dores locais", detalha o oncologista.

O especialista ressalta, entretanto, que esses sintomas não significam necessariamente a presença de câncer. Alterações urinárias também podem estar relacionadas a outras condições, como o aumento benigno da próstata e inflamações. Ainda assim, precisam ser avaliadas por um profissional de saúde, principalmente quando persistem ou aparecem acompanhadas de outros sinais.

O problema é que esperar pelo aparecimento dos sintomas pode significar perder a oportunidade de identificar a doença em uma fase mais favorável ao tratamento. "Isso tudo pode ser associado ao câncer de próstata em fases, geralmente em fases mais tardias do que a gente gostaria para diagnosticar. Normalmente, na pessoa ainda sem sintomas, é que a gente cura a grande maioria", explica Bacellar.

Obstáculos

A resistência masculina à procura por atendimento preventivo é apontada pelo oncologista como um dos principais obstáculos. Segundo ele, muitos homens ainda procuram os serviços de saúde apenas quando percebem algum problema, deixando de lado consultas e avaliações periódicas. O preconceito em relação ao exame de toque retal e a falta de informação também contribuem para esse comportamento.

"Eu acho que a principal causa é a falta da procura do homem para fazer os exames de rastreamento. Então, a gente precisa educar mais os homens, que ainda procuram muito pouco os médicos de maneira preventiva", avalia.

A diferença entre rastreamento e investigação de sintomas é fundamental para compreender como a doença pode ser identificada. O rastreamento corresponde à realização de exames em pessoas que não apresentam sintomas, enquanto a investigação diagnóstica acontece quando o paciente já apresenta alguma alteração que precisa ser esclarecida. No primeiro caso, a intenção é identificar possíveis sinais da doença antes que ela provoque manifestações clínicas.

Entre os exames utilizados nessa avaliação estão o PSA, sigla em inglês para antígeno prostático específico, e o toque retal. O primeiro é realizado por meio de uma amostra de sangue e identifica a concentração de uma proteína produzida pela próstata. Quando apresenta alterações, pode indicar a necessidade de investigação, mas não confirma sozinho a existência de câncer. O aumento do PSA também pode estar relacionado a condições benignas.Bacellar destaca que o rastreamento precisa ser discutido com o profissional de saúde, considerando os fatores de risco e as características de cada homem. A avaliação não deve ser confundida com a investigação de sintomas, que precisa acontecer sempre que surgirem alterações. "A investigação de sintomas, como falei, no câncer de próstata, em geral, quando o sintoma aparece é porque a doença já está um pouquinho mais avançada do que a gente gostaria, seja sintomas urinários, seja dor local", afirma.




TRBN




Foto: Divulgação/Ascom