Fibromialgia: por que uma doença que afeta até 3% dos brasileiros ainda leva anos para ser diagnosticada

Por Nossa Hora
Quarta-Feira, 08 de Julho de 2026 às 10:50
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A fibromialgia ganha espaço novamente no horário nobre da TV com o desenvolvimento da trama da novela Quem Ama, Cuida, que aborda a rotina de uma personagem diagnosticada com a doença. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a condição afeta entre 2% e 3% da população brasileira, principalmente mulheres, mas ainda é cercada por desinformação e pode levar anos até o diagnóstico correto. A dificuldade está no fato de que a doença não costuma provocar alterações objetivas em exames laboratoriais ou de imagem e reúne sintomas que, muitas vezes, são investigados isoladamente.

Embora a representação na televisão contribua para ampliar a conscientização, a reumatologista da Clínica IBIS, Dra. Viviane Machicado, destaca que a fibromialgia vai muito além da dor. Além do desconforto difuso pelo corpo, os pacientes frequentemente convivem com fadiga intensa, sono não reparador, dificuldades de memória e concentração, alterações de humor e redução importante da capacidade funcional.

Segundo a especialista, a ausência de alterações objetivas nos exames é um dos fatores que mais contribuem para que a condição seja subestimada. Como os sintomas não costumam ser identificados por exames laboratoriais ou de imagem, muitos pacientes têm seu sofrimento questionado ou minimizado, o que pode atrasar a busca pelo diagnóstico e pelo tratamento adequados.

"Sabemos que existe uma alteração na forma como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos, fenômeno conhecido como sensibilização central. É como se o 'volume' da dor estivesse aumentado. Estímulos que normalmente seriam pouco dolorosos passam a ser percebidos com intensidade muito maior. Isso explica por que exames costumam estar normais, sem que isso diminua a legitimidade do sofrimento do paciente."

Apesar de não haver um exame específico para confirmar a fibromialgia, isso não significa que o diagnóstico seja incerto. A Dra. Viviane explica que a identificação da doença é clínica, baseada na avaliação médica, no histórico do paciente, no conjunto de sintomas apresentados e na exclusão de outras condições que possam causar manifestações semelhantes.

Essa característica, somada ao fato de os sintomas serem comuns a outras condições, faz com que o diagnóstico, muitas vezes, demore anos. Como as manifestações podem ser investigadas de forma isolada, é comum que o paciente passe por diferentes especialistas antes de chegar ao reumatologista, profissional capacitado para avaliar o conjunto dos sintomas e estabelecer o diagnóstico clínico. Dor persistente, fadiga, alterações do sono, dificuldades cognitivas — conhecidas como fibrofog — e hipersensibilidade ao toque formam um padrão característico da doença quando analisados em conjunto.

Diagnóstico precoce é essencial para preservar a qualidade de vida

O diagnóstico precoce é um dos principais aliados para evitar que a fibromialgia comprometa progressivamente a autonomia dos pacientes. Sem o tratamento adequado, atividades simples do cotidiano, como trabalhar, estudar, dirigir ou manter a vida social, podem se tornar cada vez mais difíceis.

Segundo a Dra. Viviane, muitos pacientes convivem durante anos com dores persistentes antes de receberem o diagnóstico correto. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de controlar os sintomas, preservar a funcionalidade e recuperar a qualidade de vida.

"Esse atraso pode levar à redução progressiva da capacidade física, afastamento do trabalho, piora do condicionamento, aumento da ansiedade e da depressão e maior dificuldade para controlar a dor. Quanto mais precoce o diagnóstico e o início de um tratamento adequado, maiores são as chances de recuperar a qualidade de vida."

Embora ainda não exista cura para a fibromialgia, a doença pode ser controlada quando o tratamento é iniciado precocemente e conduzido de forma multidisciplinar. A abordagem associa medicamentos, atividade física individualizada, melhora da qualidade do sono, alimentação saudável, acompanhamento psicológico e educação sobre a doença. Mais do que aliviar a dor, o objetivo é devolver autonomia, funcionalidade e qualidade de vida ao paciente.

Para a especialista, a visibilidade proporcionada pela novela representa uma oportunidade para combater preconceitos, ampliar o conhecimento sobre a doença e incentivar a busca por avaliação médica diante de dores persistentes.

"O fato de a dor não aparecer em exames não significa que ela não exista. Embora ainda não exista cura, existem tratamentos eficazes que permitem controlar os sintomas e recuperar qualidade de vida. O diagnóstico correto, aliado a uma abordagem individualizada e multidisciplinar, pode transformar a vida desses pacientes."