Dificuldade para comer pode ser doença inflamatória, alerta especialista
Ela mastiga devagar, corta a carne em pedaços minúsculos, bebe água a cada garfada e, após vinte minutos, o prato ainda parece intocado. Para muitos pais, a cena é o retrato da "birra", da seletividade alimentar ou do simples desinteresse pela comida. Mas, sob o olhar atento da alergologista da Clínica IBIS, Dra. Leila Borges, esse comportamento pode ocultar um diagnóstico silencioso e persistente: a esofagite eosinofílica. Trata-se de uma doença inflamatória crônica do esôfago que pode afetar crianças e, por mimetizar comportamentos infantis comuns, levar anos para ser identificada.
“A criança não consegue verbalizar o que sente. Ela aprende a adaptar o hábito alimentar para evitar o desconforto ao engolir, mas o adulto lê isso como obstinação”, explica a médica. “Mastigação excessiva, recusa de alimentos sólidos, preferência por texturas pastosas, engasgos frequentes e até vômitos durante a refeição são sinais de alerta. Não é manha; muitas vezes, é inflamação severa.”
O alerta ganha urgência com a proximidade do Dia Mundial da Esofagite Eosinofílica, celebrado em 22 de maio. A data é um marco para conscientizar sobre uma condição que atinge, especialmente, pacientes com o chamado perfil atópico — aqueles com histórico de asma, rinite alérgica, dermatite atópica ou alergias alimentares. “Nesses casos, a suspeita precisa ser imediata. Se a dificuldade alimentar persiste, não se deve atribuir apenas a uma 'fase'. A investigação com o especialista é o único caminho seguro”, reforça a médica.
As consequências, contudo, transbordam o prato. Quando o ato de comer se torna doloroso, a criança reduz drasticamente a ingestão, comprometendo o ganho de peso, o crescimento e abrindo margem para deficiências nutricionais graves. “Muitas vezes, os pais acreditam que o filho é 'ruim de boca', mas a realidade é que o esôfago está tomado por eosinófilos – células do sistema imunológico que se acumulam e provocam dor, sensação de alimento retido e uma dificuldade real de deglutição. A criança passa a associar o alimento ao sofrimento”, detalha a alergologista.
Há também o peso invisível do isolamento social. O medo de engasgar diante dos colegas, a ansiedade que precede cada refeição e a recusa em participar de eventos escolares ou festas de aniversário. “O impacto emocional é profundo. As famílias vivem o estresse de cada almoço ou jantar, gerando um desgaste que corrói a relação com a comida”, afirma. O diagnóstico correto, portanto, vai além de tratar a inflamação: ele devolve à família a possibilidade de uma rotina saudável e prazerosa à mesa.
Embora prevalente na infância, a esofagite eosinofílica não poupa os adultos. Muitos convivem com a doença ignorando sintomas como a sensação de “bolo” na garganta, a necessidade constante de líquidos para empurrar a comida e episódios de impactação alimentar – quando o alimento fica preso no esôfago, exigindo intervenção de emergência. “Adultos passam décadas adaptando hábitos sem saber que sofrem de uma inflamação crônica. A investigação é indispensável em qualquer faixa etária”, alerta Leila.
O diagnóstico definitivo exige a realização de uma endoscopia digestiva alta com biópsias múltiplas do esôfago. “Em alguns casos, o esôfago parece visualmente normal no exame. Sem a biópsia, a inflamação passa despercebida, o que é um dos grandes desafios clínicos”, explica a alergologista. Sem o tratamento adequado, a inflamação contínua pode levar ao remodelamento do órgão, causando estreitamentos (estenoses) que agravam progressivamente a dificuldade de engolir.
A boa notícia é que o manejo atual da doença garante qualidade de vida. “O tratamento evoluiu e inclui desde ajustes alimentares personalizados e inibidores de bomba de prótons até corticoides tópicos deglutidos e, em casos específicos, o uso de imunobiológicos. O diferencial, contudo, é o acompanhamento multidisciplinar envolvendo alergista, gastroenterologista, nutricionista e apoio psicológico”, pontua.
Neste Dia Mundial da Esofagite Eosinofílica, a médica deixa um recado direto aos responsáveis: “Dificuldade alimentar persistente não é fase. Se a criança engasga, recusa grupos alimentares, demora excessivamente para comer ou depende de líquido nas refeições, procure ajuda especializada. O diagnóstico precoce preserva o crescimento, protege a saúde emocional e evita complicações que podem marcar a vida adulta.”