Engasgos provocam cerca de 1,5 mil mortes de idosos por ano no Brasil
O que parece um acidente simples durante uma refeição pode representar um risco grave para a população idosa. Os engasgos, muitas vezes associados a pedaços grandes de alimentos ou à falta de atenção durante a alimentação, também podem estar relacionados ao envelhecimento da musculatura responsável pela mastigação e pela deglutição. No Brasil, aproximadamente 1,5 mil pessoas com 60 anos ou mais morreram por essa causa em 2024, segundo dados do Ministério da Saúde.
Ao todo, foram cerca de 2.470 mortes por engasgo no país naquele ano. Os idosos representaram aproximadamente 60% das vítimas. Entre as pessoas com 80 anos ou mais, foram registradas cerca de 771 mortes, o que demonstra a maior vulnerabilidade dessa faixa etária.
O problema merece atenção porque nem todos os casos começam com um engasgo repentino. Em muitos idosos, a dificuldade para engolir alimentos e líquidos aparece aos poucos, comprometendo a alimentação e aumentando o risco de complicações. Essa condição é conhecida como disfagia e pode passar despercebida por familiares e até por profissionais de saúde.
De acordo com a fonoaudióloga Juliana Venites, titulada em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e presidente da Academia Brasileira de Disfagia, o envelhecimento também provoca mudanças na musculatura da boca, da língua e da garganta.“Por senso comum, a gente sabe que, ao envelhecer, perde força nas pernas e nos braços, mas esquece que também perde força na musculatura do pescoço, do rosto e da língua”, explica.
Presbifagia
A especialista destaca que essa perda de força pode dificultar a passagem dos alimentos pela garganta. A condição relacionada às mudanças naturais do envelhecimento é chamada de presbifagia. Embora nem todos os idosos desenvolvam disfagia, estima-se que entre 15% e 30% possam apresentar dificuldades para engolir mesmo sem uma doença associada.
Doenças neurológicas estão entre as principais causas
Além das mudanças naturais do envelhecimento, doenças neurológicas estão entre os principais fatores associados à disfagia. Acidentes vasculares cerebrais (AVC), Parkinson, Alzheimer, outras demências e traumatismos cranianos podem comprometer os movimentos necessários para engolir com segurança.
Pessoas que passaram por intubação ou tratamentos contra o câncer de cabeça e pescoço também podem desenvolver dificuldades de deglutição. Outra condição que merece atenção é a sarcopenia, caracterizada pela perda de força e massa muscular, que também pode atingir a musculatura envolvida na alimentação.
Segundo Juliana Venites, uma das dificuldades é identificar o problema antes que ele provoque consequências mais graves. A especialista explica que muitos pacientes só recebem o diagnóstico quando já apresentam complicações. “Dos pacientes disfágicos, aproximadamente 8% só têm o diagnóstico correto no tempo certo. Então, nós temos o diagnóstico muito tardiamente, ou esse diagnóstico nem é realizado”, alerta.
Entre os sinais que merecem atenção estão tosse durante as refeições, engasgos frequentes, cansaço ao comer, pigarro, dificuldade para iniciar a deglutição e sensação de alimento parado na garganta. A perda de peso sem explicação também pode indicar que a pessoa está deixando de comer determinados alimentos por causa da dificuldade.
Consequências vão além do engasgo
A disfagia pode provocar consequências que vão muito além de um episódio de engasgo. Uma das principais é a desnutrição. Com dificuldade para engolir, o idoso pode reduzir a quantidade de comida ou evitar alimentos importantes, principalmente aqueles ricos em proteínas.A perda de peso também pode provocar redução da massa muscular, aumentando a fragilidade e comprometendo a autonomia da pessoa.
Outro risco é a pneumonia aspirativa. Ela acontece quando alimentos, líquidos ou saliva seguem para as vias respiratórias, em vez de chegar ao estômago. Em alguns casos, pequenas quantidades são aspiradas repetidamente, provocando tosse persistente, infecções e alterações pulmonares. “Uma das consequências são as pneumonias por aspiração de alimento. Às vezes, a pessoa não apresenta aquele engasgo grave que todos percebem, mas vai aspirando pequenas quantidades de alimento. Isso também pode provocar problemas pulmonares”, explica a fonoaudióloga.
Cuidados durante as refeições
A prevenção começa com a observação dos hábitos alimentares. Manter a pessoa sentada, evitar refeições quando estiver sonolenta e oferecer os alimentos em um ritmo adequado são alguns dos cuidados recomendados.
Para idosos que precisam de ajuda para comer, a atenção deve ser redobrada. Quem oferece a alimentação precisa respeitar o tempo de mastigação e deglutição, sem apressar o processo. Também é importante evitar conversas durante a mastigação e manter a cabeceira elevada, especialmente para pessoas que se alimentam na cama.
A especialista recomenda ainda atenção à consistência dos alimentos. Carnes muito duras, alimentos secos e preparações difíceis de mastigar podem aumentar o risco de engasgos em pessoas com dificuldades de deglutição. Juliana também destaca a importância de manter a atividade física, a socialização e uma alimentação adequada durante o envelhecimento. Exercícios orientados para a musculatura da boca, da língua e da voz podem contribuir para a manutenção das funções envolvidas na deglutição.
A orientação é procurar avaliação profissional diante de episódios frequentes de tosse, engasgos ou dificuldade para engolir. O diagnóstico precoce permite identificar a causa do problema e adaptar a alimentação e os cuidados necessários, reduzindo o risco de complicações.
TRBN
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