Suspensão de vistos de imigração dos EUA gera apreensão entre brasileiros
"Foi como uma bomba atômica no peito."
Foi assim que o consultor financeiro Pedro Zava, de 43 anos, descreveu o impacto da notícia de que os Estados Unidos vão suspender a emissão de vistos de imigração para cidadãos do Brasil e de outros 74 países.
Com um processo migratório em andamento desde 2023, ele teme que a decisão do governo americano coloque em risco o plano de morar no país com a esposa e três filhos.
Zava está na fila para obter um visto da categoria EB-2 NIW, que permite a concessão do green card sem oferta se o candidato comprovar qualificações avançadas e se sua atuação for considerada de interesse nacional para os EUA.
Seu pedido foi protocolado em setembro de 2024 e ainda está na fase documental. Ele conta que sua primeira reação à notícia foi de desespero.
No dia 14 de janeiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que iria suspender o processamento de vistos de imigração para cidadãos de países considerados de "alto risco para uso de benefícios públicos", como parte de uma revisão mais ampla de suas políticas migratórias.
A medida não afeta vistos de turismo nem outros vistos temporários, como de estudo, trabalho provisório ou negócios.
Além do Brasil, a lista inclui países como Somália, Rússia, Afeganistão, Irã, Iraque, Egito, Nigéria, Tailândia e Iêmen, entre outros.
"Quando vi aquilo meu humor mudou completamente. Fiquei sem chão", relatou. "Do jeito que foi noticiado, parecia que tinha um bloqueio geral, que o Brasil estava numa lista como se ninguém nunca mais pudesse tirar visto."
"Sou cristão, então comecei a orar, tentar acalmar meus ânimos. Depois fui atrás de informação", diz Zava, que também presta consultoria para um escritório de imigração, o AG Immigration.
Em nota, o governo americano afirmou que a decisão reflete a posição do presidente Donald Trump de que imigrantes "devem ser financeiramente autossuficientes e não representar um fardo financeiro para os americanos".
O texto também diz que a revisão busca impedir que imigrantes utilizem programas de assistência social ou se tornem um "encargo público".
"Estamos trabalhando para garantir que a generosidade do povo americano não seja mais explorada. O governo Trump sempre colocará os Estados Unidos em primeiro lugar", diz publicação do Departamento de Estado dos EUA nas redes sociais.
Zava vê com simpatia a política migratória mais rígida defendida pelo governo republicano. "Avalio positivamente, por incrível que pareça", afirma.
"Quero estar nos Estados Unidos porque compreendo que o americano exerce bem a ideia de soberania nacional, de entender America First [a América em primeiro lugar] e de olhar para as cadeias produtivas de forma mais meritocrática. Não vou me sentir injustiçado e vou compreender a decisão deles. Mas vou ficar muito triste."
Na avaliação dele, governos de políticos do Partido Democrata foram menos rigorosos com o tema da imigração.
"Isso acabou prejudicando profissionais qualificados, como eu, que tentam fazer tudo da forma correta. Vejo o movimento atual justamente como um efeito chicote do que aconteceu no passado, de abertura de fronteiras", analisa.
Ele acredita que a tendência seja priorizar imigrantes com alta qualificação. "Imagino que a peneira vai ficar mais correta. Quem eles escolherem vai ser escolhido com mais critério. Tenho fé nisso."
O governo dos EUA, no entanto, ainda não abriu nenhuma exceção neste sentido.
Até o momento, segundo uma porta-voz do Departamento de Estado em entrevista à BBC News Brasil, não há expectativa de revisão da inclusão do Brasil no grupo de países afetados e não estão previstas exceções, nem mesmo para solicitantes que possam comprovar ter recursos financeiros para se manter no país.
Por Rute Pina, da BBC
Foto: Agência Brasil