Produtores de cacau protestam no sul da Bahia e alertam para risco de colapso

Por Nossa Hora
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2026 às 13:13
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A crise na cacauicultura baiana ganhou as ruas nesta semana. Produtores de diversas cidades do sul, baixo-sul e Vale do Jiquiriçá realizaram manifestações em Ilhéus contra o aumento das importações de amêndoas de cacau africanas, principalmente da Costa do Marfim, em meio à forte queda dos preços pagos ao produtor e ao aumento dos custos de produção. O movimento acendeu um alerta sobre o futuro da atividade, considerada estratégica para a economia regional.

A Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB) declarou apoio às manifestações e classificou o momento como “extremamente preocupante”. Em entrevista à Tribuna da Bahia, o presidente do Sistema FAEB/SENAR, Humberto Miranda Oliveira, afirmou que a entidade vê uma relação direta entre a ampliação das importações e o atual cenário de desvalorização do cacau nacional. Segundo ele, a primeira grande preocupação é sanitária.

“O cacau que vem da África precisa ter segurança rigorosa para que não entre uma nova praga no Brasil. Não queremos jamais reviver o trauma da vassoura-de-bruxa”, alertou. A FAEB defende fiscalização desde o país de origem até a chegada ao território brasileiro.

Outro ponto destacado é a concorrência desigual. Humberto Miranda argumenta que os produtores brasileiros operam sob um dos códigos florestais mais rígidos do mundo, além de legislação trabalhista severa e alta carga tributária. “Fica muito difícil competir com produtos vindos de países que não seguem as mesmas regras do jogo”, disse.

A federação também critica o uso do cacau importado como possível “estoque regulador” pela indústria. Para a FAEB, o produto estrangeiro deveria ser utilizado exclusivamente para processamento e posterior exportação, sem interferir na formação de preços internos quando o valor do cacau nacional começa a reagir. Sobre os protestos, a entidade reforça o apoio. “Defendemos toda manifestação pacífica e dentro da lei. Esse movimento é legítimo e precisa mobilizar o mercado e a política, porque muitos dos problemas têm origem em políticas públicas”, afirmou o presidente da FAEB à Tribuna da Bahia.

O cenário para 2026, segundo a federação, é de alto risco. Custos de produção em alta, queda brusca nos preços e insegurança regulatória colocam em xeque a sobrevivência de milhares de produtores. A FAEB informou que tem atuado em Brasília para discutir mudanças no regime de drawback e dialogado com o Congresso sobre projetos que ampliem a utilização do cacau nacional na produção de chocolate.

Indústria rebate críticas de produtores e da federação

Do outro lado, a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) rebate as críticas dos produtores e da federação. A presidente executiva da entidade, Anna Paula Losi, afirmou em entrevista à Tribuna da Bahia que as importações de amêndoas são complementares e ocorrem porque o Brasil não produz cacau suficiente para atender à demanda da indústria.

“A importação não substitui a produção nacional nem reduz a demanda pelo cacau brasileiro. Ela é necessária para manter a indústria em operação, cumprir contratos e preservar empregos ao longo de toda a cadeia”, declarou. Anna Paula também contestou a ideia de estímulo artificial às importações. Segundo ela, dados do setor indicam que houve uma redução de aproximadamente 33% no volume importado nos últimos cinco anos, o que, na avaliação da entidade, afasta a hipótese de que o cacau estrangeiro esteja pressionando deliberadamente os preços no mercado interno.

Para a AIPC, a forte queda nos preços pagos ao produtor está ligada a um movimento global de retração da demanda por derivados de cacau, com reflexos diretos no Brasil. “Observamos uma redução significativa na moagem e na comercialização de derivados, o que impacta toda a cadeia, independentemente da origem do cacau utilizado”, explicou.

Sobre o regime de drawback, a presidente executiva defendeu que se trata de um instrumento legal e amplamente fiscalizado. “O drawback é essencial para que a indústria brasileira mantenha competitividade no mercado internacional. Sem esse mecanismo, a moagem cairia ainda mais, com efeitos negativos permanentes para todo o setor”, afirmou.

Apesar das divergências, a AIPC reconhece a legitimidade das manifestações realizadas pelos produtores no sul da Bahia e defende o diálogo. “Indústria e produção são elos interdependentes e precisam avançar juntas para o fortalecimento da cacauicultura brasileira”, disse.




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