Oscilação da pressão arterial aumenta risco de AVC e morte, diz estudo

Por Nossa Hora
Terça-Feira, 29 de Setembro de 2026 às 10:02
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Pequenas flutuações na pressão arterial ao longo do dia são comuns e podem estar associadas, por exemplo, a momentos de estresse ou maior esforço físico. Porém, quando a oscilação mantém-se a longo prazo, o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade é elevado, segundo um estudo com dados de mais de 50 mil pessoas apresentado nesta segunda (28/09), na reunião anual da Associação Europeia para Estudo do Diabetes em Milão, na Itália. 

Segundo os pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Amsterdã, nos Países Baixos, quando o paciente também sofre de diabetes, o risco de morte por qualquer causa é ainda três vezes maior, em comparação com pessoas com níveis normais de açúcar no sangue e baixa variação da pressão arterial. “Ao contrário da pressão arterial média, a variabilidade da pressão arterial não é rotineiramente levada em consideração na avaliação da saúde. Esses resultados sugerem que ela poderia ajudar a identificar pacientes de alto risco que, de outra forma, poderiam passar despercebidos”, afirma Fariba Ahmadizar, que liderou o estudo. 

Os pesquisadores usaram informações do UK Biobank, um banco de dados de saúde do Reino Unido. No começo do estudo, 50.744 participantes tinham níveis normais de açúcar no sangue, 5.397 foram diagnosticados com pré-diabetes — condição em que as taxas de glicemia estão altas, porém ainda não suficientes para caracterizar uma doença — e 1.470 faziam tratamento para diabetes tipo 2. Os pesquisadores avaliaram a variação da pressão arterial entre as consultas, levando em consideração o intervalo entre as medições. Os voluntários foram acompanhados por cinco anos em média. Durante o período, 319 desenvolveram demência, 571 sofreram um AVC e 1.460 morreram. 

Medidas

Uma maior variabilidade em cada uma das quatro medidas de pressão arterial avaliadas — sistólica (máxima), diastólica (mínima), média e de pulso — foi relacionada a um risco maior de morte por qualquer causa. Essas associações permaneceram mesmo após o ajuste para outros fatores de risco, como glicemia. “Em outras palavras, a variação da pressão arterial entre as consultas foi associada a um risco maior de morte, mesmo após considerar a pressão arterial média”, explica Ahmadizar. 

Cada aumento na variabilidade da pressão sistólica foi associado a um risco 11% maior de morte e de 10% de AVC. No caso da diastólica, os percentuais foram 8% e 12%, respectivamente. Os pesquisadores também examinaram os níveis de açúcar no sangue em combinação com a variabilidade da pressão arterial. Em comparação com os participantes com taxa de glicose normal e pouca oscilação na pressão, os pacientes de diabetes tipo 2 e flutuações mais altas tiveram um risco quase três vezes maior (2,8) de morrer durante o período de acompanhamento. 

Já os participantes com pré-diabetes e alta variabilidade da pressão arterial sistólica tiveram uma probabilidade de morte 62% maior do que aqueles com níveis normais de açúcar no sangue e sem hipertensão. Por fim, os pesquisadores estimaram que o risco de morrer em 10 anos era de, aproximadamente, 1% entre os voluntários com glicemia adequada e baixa oscilação sistólica em comparação com aproximadamente 2,9% registrado entre aqueles com diabetes tipo 2 e alta variabilidade. Não foram encontradas associações estatisticamente significativas para demência.


Acompanhamento 

Para o cardiologista Donald Lloyd-Jones, professor de medicina preventiva na Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, o acompanhamento da variabilidade da pressão arterial pode ajudar a entender quem corre maior risco de morte súbita cardíaca, permitindo ações de prevenção. "A variabilidade da pressão arterial não se resume a números em um gráfico. Ela nos revela algo importante sobre um risco oculto que não conseguíamos quantificar antes. Para os milhões de pessoas que aferir sua pressão arterial, existe um incentivo para ir além dos números e tentar manter a estabilidade”, diz. 

Os mecanismos por trás das flutuações necessitam mais estudos, argumenta Wanpen Vongpatanasin, professora do Departamento de Medicina Interna do UT Southwestern Medical Center em Dallas, nos Estados Unidos. "É muito difícil dizer o que poderia explicar essa associação. Pode ser que a adesão à medicação não seja boa ou por questões de estilo de vida. "Se soubéssemos os mecanismos reais que causam as oscilações na pressão arterial, poderíamos ter ferramentas melhores para reduzir as consequências para o coração."

Independentemente dos mecanismos que explicam as variações, o cardiologista Vinícius Marques Rodrigues, do Órion Complex, em Goiânia, alerta sobre a necessidade de monitorar constantemente a pressão arterial, pois 50% dos pacientes são assintomáticos. “Aferir a pressão regularmente é, comprovadamente, a maneira mais eficaz de diagnosticar a doença cardiovascular antes que ela cause danos severos à saúde. Pessoas acima de 20 anos devem medir a pressão ao menos uma vez por ano, isso pode ser feito durante o check-up anual com o médico, caso não apresentem fatores de risco. Para quem tem histórico familiar ou sobrepeso, essa frequência deve ser determinada por um médico cardiologista.”




Fonte: Correio Braziliense

Foto: Romildo de Jesus