Esgotamento emocional atinge 48,5% dos médicos intensivistas no Brasil
Quase sete em cada dez médicos intensivistas brasileiros apresentam pelo menos uma dimensão relacionada ao burnout alterada. O dado faz parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). A pesquisa ouviu 2.338 médicos de 27 unidades da Federação, entre março e outubro de 2024, e analisou 3.112 vínculos de trabalho.
O principal sinal identificado pelo levantamento foi a exaustão emocional. Ao todo, 48,5% dos médicos apresentaram nível elevado nesse indicador. Outros 16% registraram nível elevado de despersonalização, dimensão relacionada ao distanciamento afetivo, enquanto 46,4% apresentaram baixa realização profissional.
O resultado foi apresentado na manhã desta segunda-feira (14), durante uma coletiva de imprensa realizada por meio de plataforma digital. O levantamento avaliou três dimensões relacionadas ao burnout: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. Os dados mostram que 68,9% dos profissionais apresentaram alteração em pelo menos uma dessas dimensões.
A pesquisa também mostra que o impacto do desgaste não fica restrito ao ambiente hospitalar. Ao avaliar a satisfação com a própria vida, o estudo encontrou 54,2% dos médicos com pontuação abaixo do nível considerado satisfatório. O dado amplia a dimensão do problema e indica que as condições enfrentadas no exercício da Medicina Intensiva podem repercutir sobre o bem-estar geral dos profissionais.
Para o presidente da AMIB, Cristiano Franke, a saúde mental dos médicos precisa ser incorporada à discussão sobre a própria capacidade do sistema de saúde de oferecer atendimento adequado aos pacientes críticos.
“Um sistema de saúde só é resiliente se cuida também de quem sustenta o cuidado. Os dados desse Inquérito mostram que a saúde mental dos médicos das UTIs não pode ser tratada como pauta secundária. Ela é questão prioritária para políticas públicas, que exige mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde. Seguiremos comprometidos em transformar esse diagnóstico em ação concreta”, afirma.
A rotina dos intensivistas reúne alguns dos principais elementos associados ao desgaste profissional. O médico que trabalha em uma UTI precisa lidar com pacientes em estado grave, decisões rápidas e complexas, pressão de familiares, exposição frequente à dor e à morte e responsabilidade permanente sobre situações em que pequenas mudanças podem determinar a evolução de um paciente.
Além da complexidade da atividade, a pesquisa mostra uma realidade marcada pela multiplicidade de vínculos. Foram identificados 3.112 vínculos de trabalho entre os 2.338 médicos participantes, uma média de aproximadamente 1,33 vínculo por profissional. O número ajuda a dimensionar uma rotina que, para muitos, envolve diferentes hospitais, equipes e escalas.
O levantamento também aponta uma relação direta entre a organização dessa rotina e os indicadores de saúde emocional. Médicos que relataram uma agenda de trabalho sobrecarregada apresentaram prevalência de burnout 25% maior. No mesmo grupo, a prevalência de baixa satisfação com a vida foi 24% maior.
Especialistas alertam para quando a jornada impede a recuperação
Os dados apresentados pela AMIB e pelo CFM mostram que o descanso também pode funcionar como um fator de proteção. Médicos que relataram boa qualidade do sono, em pelo menos três dias por semana, apresentaram prevalência de burnout 19% menor e prevalência de baixa satisfação com a vida 25% menor.
Atividade física, convivência social, lazer e alimentação adequada também apareceram associados de forma favorável a um ou aos dois desfechos analisados. O conjunto dos resultados reforça que o enfrentamento do problema não passa apenas por iniciativas individuais, mas também pelas condições oferecidas para que o profissional consiga se recuperar da rotina.
A própria AMIB alerta que o burnout não deve ser interpretado apenas como uma característica pessoal do médico. O levantamento considera sintomas relacionados à síndrome e não constitui, isoladamente, um diagnóstico clínico individual. O objetivo é identificar fatores de risco e sinais de desgaste que possam orientar intervenções no ambiente de trabalho.
A dimensão profissional também chama atenção. Quase metade dos médicos avaliados, 46,4%, apresentou baixa realização profissional. O indicador está relacionado à percepção de competência, propósito e satisfação com o exercício da profissão. Assim, o desgaste aparece não apenas como cansaço, mas também como uma possível perda da sensação de realização no trabalho.
Para Franke, as consequências podem chegar à assistência prestada aos pacientes. “Quem trabalha em uma UTI vê a vida de seus pacientes por um fio. Se o médico está esgotado, sua atuação pode ser menos consistente do que o desejado. Por isso, é preciso inverter a lógica desse jogo e também cuidar daqueles que cuidam para sustentar a qualidade da assistência ao paciente crítico no Brasil”, ressaltou.
O problema não é exclusivamente brasileiro. A apresentação da AMIB e do CFM cita uma metanálise publicada em 2023, que reuniu 25 estudos e 8.187 médicos intensivistas. O levantamento internacional apontou que 41% dos profissionais apresentaram níveis elevados de burnout.
Na Bahia, falta o recorte estadual do novo levantamento
Embora a pesquisa nacional tenha incluído profissionais de 27 unidades da Federação, a AMIB e o CFM ainda não divulgaram, no material apresentado, os percentuais específicos de burnout e esgotamento emocional para a Bahia. Dessa forma, não é possível afirmar que os índices nacionais de 68,9% ou 48,5% se repetem entre os médicos intensivistas que trabalham no estado.
Mesmo sem o recorte regional, profissionais que atuam em UTIs baianas e preferiram não ser identificados relatam situações semelhantes às apontadas pelo levantamento nacional. Entre os relatos estão pressão emocional, dificuldades nas relações dentro das equipes, jornadas desgastantes e episódios de sofrimento durante o expediente.
“Já saí de meio de sala pra ir chorar pra não contaminar equipamento. Sair pra chorar, imagina, inclusive de bullying de outros médicos. Então não eh só o hospital eh o conjunto e a formação medica”, relatou uma profissional que acompanha a rotina de profissionais em unidades de terapia intensiva.
O relato aponta para uma dimensão que vai além da estrutura física ou da quantidade de horas trabalhadas. Relações profissionais, formação, pressão cotidiana e a maneira como as equipes são organizadas também podem interferir na saúde emocional de quem trabalha dentro das UTIs.
A pesquisa nacional, inclusive, identifica a especialização como um possível fator de proteção. Entre médicos intensivistas, 44,5% apresentaram alto nível de esgotamento emocional, 12,7% alto grau de despersonalização e 39,8% baixo nível de satisfação com o próprio desempenho. Entre médicos generalistas que trabalham nas UTIs, os percentuais foram maiores: 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente.
“O inquérito mostra como a qualidade da formação dos especialistas em Medicina Intensiva vai além dos títulos. Ela impacta na saúde mental e física dos médicos e, por conseguinte, na qualidade da assistência que é destinada ao paciente crítico”, conclui Franke.
*AMIB quer transformar diagnóstico em mudança nas UTIs
A entidade defende que o enfrentamento do burnout não seja tratado exclusivamente como uma responsabilidade individual do médico. Entre as medidas apresentadas durante a coletiva estão a organização de escalas previsíveis, carga de trabalho compatível e equipes adequadas; valorização e qualificação profissional; garantia de descanso, sono, convivência e acesso confidencial ao cuidado; além do monitoramento do bem-estar e da avaliação de intervenções institucionais.
A proposta é levar os resultados do inquérito a gestores, autoridades, entidades médicas e órgãos de fiscalização e controle. A AMIB pretende criar uma rede de apoio à Medicina Intensiva capaz de contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas aos principais desafios enfrentados pelas UTIs.
A mensagem apresentada durante a coletiva sintetiza a mudança de perspectiva defendida pela entidade: “Burnout não é apenas uma questão individual. É também um sinal sobre como o trabalho está organizado”. O diagnóstico coloca em discussão não apenas a saúde dos médicos, mas a própria sustentabilidade da assistência intensiva. Em unidades onde profissionais precisam permanecer concentrados diante de pacientes em estado crítico, cuidar de quem cuida passa a ser também uma questão de segurança e qualidade do atendimento.
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