Tesouro recompra R$ 17 bi em títulos e cancela leilão para conter alta dos juros

Por Nossa Hora
Quarta-Feira, 28 de Outubro de 2026 às 08:48
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O Tesouro Nacional recomprou R$ 17 bilhões em títulos IPCA+ (indexados à inflação) e cancelou um leilão de título Tesouro Selic nesta terça-feira (27), em uma intervenção no mercado após a escalada dos juros futuros com a reeleição de Lula (PT) para um quarto mandato. O valor se soma aos R$ 7,1 bilhões em recompras de títulos prefixados com juros semestrais nesta segunda (26).

A estratégia busca conter a disparada das taxas nos últimos dias, em meio à expectativa de que a Selic caia em ritmo mais lento do que o previsto, diante dos temores de uma política fiscal mais permissiva sob o governo Lula.

As expectativas para a política fiscal também afetam as projeções para a trajetória da inflação.

No Tesouro Direto, a taxa de compra do Tesouro Prefixado 2028 passou de cerca de 12,9% na sexta-feira (23) para 14,93% na segunda-feira (26), recuando para 14,56% nesta terça. Já a taxa do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2030 subiu de 6,87% para 8,31% no período, antes de recuar para 7,88% nesta sessão.

Nesta terça, o Tesouro Nacional recomprou cerca de 3,81 milhões de NTN-Bs, títulos que pagam a variação da inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de juros fixa, com vencimentos entre 2030 e 2045. As taxas aceitas variaram de 7,29% a 7,70% ao ano, além do IPCA.

O órgão também anunciou o cancelamento de um leilão de Tesouro Selic, título que acompanham a taxa básica de juros, programado para esta terça-feira.

Na segunda, foram recomprados 8,4 milhões de NTN-Fs, títulos prefixados que pagam juros semestrais.

Desse total, 5 milhões tinham prazo de cinco anos, 2,4 milhões, de sete anos, e 1 milhão, de dez anos.

Nas recompras, o Tesouro atua como comprador para absorver parte da oferta de títulos, aliviar a pressão sobre as taxas e preservar o funcionamento do mercado, cujas taxas servem de referência para operações como empréstimos, crédito privado e financiamentos empresariais.

Os títulos públicos seguem uma relação inversa entre preço e rentabilidade: quando o preço de um título cai, sua rentabilidade sobe; quando o preço aumenta, a rentabilidade diminui. A vitória de Lula (PT) elevou as expectativas para os juros, pressionando os preços dos papéis já emitidos.

Nesse cenário, investidores passaram a exigir retornos maiores para manter esses títulos em carteira, em comparação com os oferecidos por novos papéis. As intervenções do Tesouro procuram reduzir a volatilidade no mercado e aliviar a pressão sobre as taxas.

Para analistas da Warren, as operações sinalizam a preocupação em preservar as condições de funcionamento dos títulos de renda fixa.

“Ao longo das próximas horas e dos próximos dias, devemos ver a atuação do Banco Central no câmbio, de forma a restabelecer a funcionalidade do mercado, e do Tesouro no mercado de títulos, para enxugar o excesso de vendas e ajudar o mercado a encontrar um novo equilíbrio de preços”, afirma a instituição em relatório.

Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da instituição financeira, o Tesouro não busca defender um nível específico de taxa. “O objetivo é reduzir a disfuncionalidade, não fixar preço. Isso também preserva as condições de financiamento da dívida, porque sem esse tipo de intervenção o mercado ficaria disfuncional por mais tempo”.

A atuação do Tesouro foi reforçada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que autorizou novas recompras caso houvesse necessidade. “Hoje a gente pode, sim, ter nova recompra de título do Tesouro.

Eu falei com o secretário do Tesouro hoje de manhã e disse para ele que eu autorizo, na medida em que tiverem colocadas as condições e as necessidades de fazer intervenção”, disse o ministro a jornalistas.

Durigan afirmou que a atuação buscou restabelecer parâmetros para o funcionamento do mercado, sem determinar preços para o dólar ou para os títulos públicos. “O mercado se desfazendo de posição pode ficar sem parâmetro e aí fica aquela queda, aquela variação de preço muito alta”, afirmou.

Para Isabela Fukase, portfólio manager de renda fixa da Tivio Capital, as recompras contribuíram para reduzir a pressão sobre o mercado de títulos públicos, especialmente em um ambiente de menor liquidez e maior volatilidade.

“Muitos gestores precisaram reduzir posições e ajustar o nível de risco das carteiras, e a atuação do Tesouro ajudou a absorver parte desse fluxo. Além de ampliar a liquidez, as recompras também foram importantes para restabelecer referências de preço para os ativos”, afirma.

As operações são semelhantes às realizadas em março, quando a alta do petróleo em meio à guerra no Irã elevou as expectativas para a trajetória dos juros. Na ocasião, o Tesouro recomprou R$ 43,6 bilhões em títulos em dois dias, na maior intervenção em mais de uma década.




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