Sinais silenciosos e uso de medicamentos elevam risco de quedas entre idosos
As quedas atingem entre 30% e 40% das pessoas com mais de 60 anos no Brasil e chegam a 50% entre aqueles acima de 80 anos. Consideradas a principal causa externa de morte nessa faixa etária, elas também estão associadas ao aumento de internações hospitalares e à perda de autonomia, segundo dados do Ministério da Saúde.
Registros do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) apontam pouco mais de 13 mil internações de idosos por quedas em 2025, além de 412 mortes, sendo a maioria dos registros de pessoas com mais de 80 anos. De acordo com o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), esses episódios já representam a principal causa de lesões graves nessa população, com impacto direto na mobilidade, na saúde mental e na independência funcional.
Entre os fatores de risco estão problemas de memória, doença de Parkinson, alterações visuais, hipotensão ortostática, depressão, ansiedade, diabetes, desnutrição e deficiência de vitamina D. Também contribuem o uso de calçados inadequados, a necessidade de auxílio nas atividades diárias e condições ambientais, como pisos escorregadios, iluminação insuficiente e ausência de barras de apoio.
Especialistas apontam que a maioria das quedas ocorre dentro de casa e poderia ser evitada com medidas simples de prevenção. A adaptação do ambiente doméstico, aliada à prática regular de atividades físicas e ao acompanhamento médico, está entre as estratégias mais indicadas para reduzir os riscos.
No campo clínico, a identificação precoce de sinais de risco é considerada fundamental para evitar novos episódios. De acordo com Meirelayne Borges Duarte, médica geriatra e professora de medicina da Universidade Salvador (Unifacs), integrante da Inspirali, “problemas de equilíbrio, alterações na marcha, tonturas, perda de força muscular, alterações visuais e mudanças cognitivas e comportamentais são sinais importantes que muitas vezes passam despercebidos pela família”.
Segundo a especialista, pequenos desequilíbrios, passos mais curtos e arrastados, sensação de cabeça leve ao levantar e dificuldade para se levantar sem apoio indicam aumento do risco de queda. “Muitas vezes a família acha que é ‘normal da idade’, mas pode ser sinal de sarcopenia ou de doenças que contribuem para o risco de quedas”, afirma.
Após uma primeira queda, mesmo sem fratura aparente, a recomendação é realizar avaliação médica detalhada para identificar causas e prevenir recorrências. “Após a primeira queda, mesmo sem fratura visível, o ideal é tratar como um ‘alerta clínico’. A avaliação precisa ser ativa e sistemática, porque muitas causas são silenciosas”, aponta Duarte.
A médica orienta que a análise deve considerar as circunstâncias do acidente e investigar sintomas associados. “É necessário primeiro entender como a queda aconteceu, se houve algum motivo aparente, se foi um tropeço ou caiu ‘do nada’, se houve algum sintoma como tontura ou escurecimento da visão”, explica.
O uso de múltiplos medicamentos também é apontado como fator relevante no aumento do risco de quedas entre idosos. “Alguns medicamentos podem causar tontura, sonolência, redução da atenção ou queda de pressão, aumentando o risco. Especialmente calmantes, antidepressivos ou remédios para pressão, exemplos incluem benzodiazepínicos e amitriptilina”, diz Duarte.
Além das consequências físicas, as quedas podem provocar medo de novos acidentes, levando à redução da mobilidade e ao isolamento social. “Trabalhar o medo de cair, validar o medo, mas não incentivar a restrição, explicar que evitar andar piora o risco”, acrescenta. A especialista ressalta a importância da retomada gradual das atividades e da reabilitação física. “Retomar movimento precocemente, com caminhadas curtas e frequentes, exercícios focados e ambiente seguro são medidas essenciais para preservar a autonomia e evitar novas quedas”, afirma.
Por Livia Veiga
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia