Gasolina dispara em Salvador, se aproxima dos R$ 7 e revolta motoristas
O novo reajuste da gasolina na Bahia já começou a ser percebido ontem em Salvador , pesando no bolso dos consumidores e provocando forte reação entre motoristas em Salvador. Após aumento de 3,6% anunciado pela Acelen na última quinta-feira (21), o litro do combustível passou a ser encontrado entre R$ 6,93 e R$ 7 em diferentes regiões da capital baiana. O cenário aumentou a insatisfação principalmente entre trabalhadores por aplicativo, motoboys e profissionais que dependem diariamente do carro para garantir renda.
O aumento ocorre em meio à forte instabilidade no mercado internacional do petróleo. Conforme apurado pela Tribuna da Bahia, o barril segue acima dos US$ 100, impulsionado pelas tensões geopolíticas e pelos conflitos no Oriente Médio, situação que pressiona os custos de produção e distribuição dos combustíveis no país.
Nos postos de Salvador, a reação dos consumidores foi imediata. Em áreas como Pituba, Iguatemi, Paralela, Avenida ACM, Armação, Juracy Magalhães e Tancredo Neves, motoristas demonstravam indignação ao perceber os novos valores nas bombas. Muitos reclamavam da velocidade dos reajustes e afirmavam que abastecer passou a comprometer ainda mais o orçamento doméstico.
A elevação dos preços já vinha sendo percebida nas últimas semanas. Em alguns estabelecimentos da capital, a diferença chegou a R$ 0,40 em menos de um dia. Na região da Avenida Tancredo Neves, por exemplo, postos que vendiam gasolina a R$ 6,59 passaram a cobrar até R$ 6,99, enquanto alguns locais já ultrapassaram a marca dos R$ 7 por litro.
A Acelen sustenta que os reajustes seguem critérios do Preço de Paridade de Importação (PPI), política que leva em consideração fatores como a cotação internacional do petróleo, a variação cambial e os custos globais de importação. Segundo a companhia, as alterações acompanham o comportamento do mercado internacional.
Para quem depende do veículo como ferramenta de trabalho, porém, a realidade é cada vez mais difícil. O motorista por aplicativo Ricardo Teles afirma que o combustível se transformou em uma das maiores preocupações da categoria.
“Tudo sobe, menos o valor das corridas. A gasolina aumenta quase toda semana e a gente precisa continuar trabalhando do mesmo jeito. No fim do dia sobra muito pouco”, desabafou.
Entre os entregadores por motocicleta, a situação também é considerada preocupante. Muitos relatam que passaram a reduzir trajetos ou selecionar corridas menores para tentar economizar combustível.
“A moto é o que garante nossa sobrevivência. Cada aumento diminui nossa renda”, afirmou o motoboy Cláudio Augusto.
A publicitária Flávia Fagundes, moradora de Stella Maris, também sente o impacto no orçamento. Ela percorre diariamente cerca de 28 quilômetros entre casa e trabalho, na região da Avenida Tancredo Neves. Ao final do mês, o deslocamento supera os 600 quilômetros apenas no trajeto profissional.
Com um veículo que faz média de 10 quilômetros por litro, Flávia calcula consumir aproximadamente 60 litros de gasolina por mês somente para trabalhar. Com os preços próximos de R$ 7, o gasto ultrapassa R$ 400 mensais, sem incluir estacionamento, manutenção e seguro.
“Hoje abastecer virou um susto. Você percebe claramente que o salário já não acompanha o custo de vida”, afirmou.
Funcionários de postos também relataram mudança no comportamento dos consumidores após o reajuste. Segundo frentistas ouvidos pela reportagem, aumentou o número de clientes optando por abastecimentos menores.
“Muita gente coloca R$ 20 ou R$ 30 e vai embora. Completar tanque virou exceção”, contou um trabalhador de um posto na Avenida ACM.
Impactos - O Sindicombustíveis Bahia já vinha alertando para os efeitos dos sucessivos reajustes realizados pela Refinaria de Mataripe. A entidade demonstra preocupação com os reflexos da alta tanto para consumidores quanto para postos revendedores e para a inflação no estado.
Segundo o sindicato, os aumentos se intensificaram após o agravamento das tensões internacionais envolvendo o petróleo. A entidade ressalta ainda que, em determinados períodos, a Petrobras não aplicou reajustes equivalentes em outras refinarias do país, ampliando a diferença dos preços praticados na Bahia.
Economistas apontam que o aumento dos combustíveis ultrapassa o impacto direto nos abastecimentos e acaba pressionando diversos setores da economia. Fretes, transporte por aplicativo, entregas, alimentação e serviços passam a sofrer reajustes em cadeia.
O novo aumento também reacende o debate sobre os efeitos da privatização da refinaria baiana. Desde que passou ao controle privado, a Refinaria de Mataripe vem sendo alvo de críticas frequentes de consumidores, sindicatos e setores políticos devido às constantes oscilações nos preços dos combustíveis comercializados no estado. Procurada pela reportagem, a assessoria da Acelen informou que divulgará hoje um posicionamento oficial sobre o reajuste.
Por Hieros Vasconcelos
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia