Cardápio de papel resiste ao QR Code e pode voltar às mesas dos restaurantes

Por Nossa Hora
Segunda-Feira, 24 de Agosto de 2026 às 12:05
Foto:

Há quem vá ao restaurante já sabendo o que quer comer. Há também quem goste justamente do contrário: sentar à mesa, abrir o cardápio e deixar a fome decidir o caminho. É nesse momento que começam as conversas. Um amigo aponta uma entrada, outro procura o prato principal, alguém vira a página para procurar a sobremesa e, antes mesmo de o garçom chegar, a mesa já está discutindo o jantar. Durante décadas, esse pequeno ritual fez parte da experiência de comer fora. Nos últimos anos, porém, o cardápio de papel começou a desaparecer, substituído por uma imagem quadrada que cabe na tela do celular. Agora, uma proposta aprovada pela Câmara dos Deputados pode garantir que o velho menu impresso continue tendo lugar à mesa.


A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou o Projeto de Lei 1.245/2023, que obriga restaurantes, bares, lanchonetes e estabelecimentos semelhantes a disponibilizarem cardápios impressos nos atendimentos presenciais. O texto não elimina a tecnologia: os estabelecimentos poderão continuar oferecendo menus digitais, inclusive por QR Code, mas o consumidor não poderá ser obrigado a utilizar exclusivamente essa modalidade. A proposta também determina que o acesso ao cardápio não seja condicionado à criação de cadastro ou ao fornecimento de dados pessoais. Conforme a Câmara, o projeto tramita em caráter conclusivo e, caso não haja recurso para votação no plenário, poderá seguir para o Senado.

QR Code

A discussão chega num momento em que o QR Code já se tornou parte da rotina de muitos restaurantes. A tecnologia facilitou a atualização de preços e produtos, permite alterações instantâneas no menu e pode reduzir despesas com impressão. Para o cliente, também há praticidade: basta apontar a câmera do celular e o cardápio aparece na tela. Mas a facilidade não significa que o papel tenha perdido seu valor. Para muita gente, escolher o que comer ainda é uma atividade compartilhada, que começa quando o menu passa de uma mão para outra e termina somente depois que todos chegam a um acordo sobre o pedido.


É o caso de Catarina Assunção, de 33 anos. Ela não rejeita o cardápio digital e gosta de ter as duas possibilidades, mas considera que o QR Code sozinho deixa a experiência de ir a um restaurante menos interessante. Para ela, há algo de excessivamente sofisticado, ou “gourmetizado”, na ideia de substituir completamente o menu tradicional por uma tela de celular. “Eu gosto dos dois cardápios, mas um restaurante com cardápio físico sempre merece mais respeito. É muito mais legal, é muito mais coletivo”, afirma.

Consumidores

A preferência de Catarina também passa pela forma como as pessoas se relacionam à mesa. O cardápio físico pode ser compartilhado sem que cada pessoa fique presa ao próprio telefone. Pode ser folheado enquanto a conversa continua, pode ser colocado no centro da mesa para que todos escolham juntos e permite que uma pessoa mostre a outra exatamente aquilo que acabou de encontrar. É uma experiência simples, mas que combina com a própria natureza social de um restaurante: comer acompanhado, conversar e decidir em conjunto.

Para idosos e pessoas que não têm facilidade com smartphones, a diferença é ainda mais concreta. Um cardápio exclusivamente digital pressupõe que o consumidor tenha um aparelho disponível, saiba utilizar a câmera para acessar o QR Code e consiga navegar pelo menu. A proposta aprovada pela Câmara considera justamente esse público. Segundo o relator, deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), a medida busca garantir acesso às informações também para consumidores que enfrentam dificuldades com recursos digitais. O texto aprovado determina que os menus impressos tenham informações claras e legíveis e estejam disponíveis em quantidade compatível com a capacidade de atendimento do estabelecimento.

Abrasel defende que cada estabelecimento decida como apresentar o cardápio

De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), entretanto, a discussão não deveria ser resolvida pela imposição de uma lei. A entidade reconhece que o cardápio físico continua sendo desejado pelos consumidores, mas defende que cada estabelecimento tenha liberdade para decidir como oferecer seu serviço. Em janeiro deste ano, ao comentar o veto do governador de São Paulo a uma lei que obrigaria bares e restaurantes paulistas a disponibilizarem menus impressos, a Abrasel considerou a medida acertada. Segundo Paulo Solmucci, presidente-executivo da entidade, obrigar empresas privadas a adotar determinada forma de serviço representa uma “intervenção indevida na gestão do negócio”.

Ao mesmo tempo, a posição da Abrasel está longe de significar que o papel deixou de ter importância. Pelo contrário. “Mas a nossa recomendação aos bares e restaurantes é que, sempre que possível, ofereçam também cardápios impressos. Há uma maioria do consumidor que deseja e faz questão. Atender esse desejo é uma questão de inteligência de gestão, independente de lei”, afirmou Solmucci. A declaração mostra que, para a entidade, a tecnologia pode conviver com a preferência do consumidor pelo modelo tradicional, ainda que a associação seja contrária à obrigatoriedade estabelecida por lei.

Pesquisa

Uma pesquisa da própria Abrasel ajuda a dimensionar essa preferência. Conforme levantamento realizado pela entidade no segundo semestre de 2022, 40% dos estabelecimentos que não utilizavam cardápios por QR Code apontavam a preferência dos clientes pelo menu físico como uma das principais razões para não adotar a ferramenta. Ao mesmo tempo, 38% dos restaurantes pesquisados já utilizavam o QR Code e outros 25% estavam implantando ou pretendiam adotar a tecnologia. Segundo a Abrasel, entre as vantagens percebidas pelos empresários estavam a facilidade para atualizar os itens e preços, a apresentação do menu e a redução dos custos de produção.

Em Salvador, o empresário Luiz Augusto Ramos decidiu não escolher entre uma modalidade e outra. Ele mantém o cardápio físico no restaurante e, ao mesmo tempo, disponibiliza o QR Code. A decisão, segundo ele, permite acompanhar as mudanças trazidas pela tecnologia sem retirar do cliente a possibilidade de escolher da maneira tradicional. Para quem prefere o celular, existe o menu digital; para quem quer o papel, ele continua disponível. 

Por Hieros Vasconcelos

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia