Guerra no Oriente Médio acende alerta no agronegócio da Bahia

Por Nossa Hora
Quarta-Feira, 11 de Março de 2026 às 09:19
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A escalada de tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio passou a ser observada com atenção pelo agronegócio brasileiro e já acende sinais de alerta entre produtores e entidades do setor na Bahia. Embora o conflito ocorra a milhares de quilômetros do território nacional, especialistas e lideranças do campo destacam que a agricultura moderna está profundamente integrada às cadeias globais de comércio — e qualquer instabilidade geopolítica pode gerar reflexos diretos na produção, nos custos e nas exportações.

No estado baiano, onde o agronegócio ocupa posição estratégica na economia e na geração de empregos, a preocupação envolve principalmente possíveis impactos sobre fertilizantes, logística internacional e custos de produção.

Segundo o presidente do Sistema Faeb/Senar, Humberto Miranda, a atividade agrícola está diretamente conectada ao funcionamento da economia global e costuma sentir rapidamente os efeitos de crises internacionais.

“O agronegócio está conectado à dinâmica da economia global, e momentos de instabilidade geopolítica costumam gerar reflexos diretos no campo. No caso de um eventual agravamento das tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os principais riscos para os produtores baianos estão relacionados à volatilidade dos preços internacionais, às oscilações cambiais e, sobretudo, às cadeias de suprimento de insumos essenciais à produção”, afirma.

De acordo com ele, o setor agropecuário depende de uma logística internacional eficiente e de mercados relativamente estáveis para garantir o planejamento das safras.

“O setor depende de cadeias logísticas organizadas e de mercados previsíveis. Qualquer interrupção em rotas comerciais, elevação abrupta de custos ou insegurança nos mercados pode impactar o planejamento da produção e os custos da próxima safra”, acrescenta.

Um dos principais pontos de atenção envolve a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Brasil ainda importa grande parte dos insumos utilizados na agricultura, o que torna o setor sensível a crises internacionais, especialmente quando envolvem regiões estratégicas do comércio global.

A dependência desses insumos não é um problema recente, mas ganha maior relevância em momentos de tensão geopolítica. Nos últimos anos, crises internacionais já demonstraram como conflitos armados podem afetar diretamente a agricultura.

Um exemplo recente foi a guerra entre Rússia e Ucrânia, que provocou forte turbulência no mercado mundial de fertilizantes, elevando preços e dificultando a logística de abastecimento em diversos países.

Com a nova escalada de tensões no Oriente Médio, o risco volta ao radar do agronegócio. Especialistas do setor apontam que, além da ureia — um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura —, outros insumos essenciais também podem sofrer oscilações de preço caso o conflito comprometa rotas marítimas ou provoque sanções comerciais envolvendo países produtores.

Segundo Humberto Miranda, eventuais impactos nas rotas comerciais ou na oferta desses insumos podem repercutir rapidamente no custo de produção agrícola.

“O Brasil ainda possui forte dependência de fertilizantes importados, e isso naturalmente torna o setor sensível a crises internacionais. Caso haja algum impacto nas rotas comerciais ou na oferta global desses insumos, o efeito mais imediato seria a elevação de preços e possíveis atrasos na entrega”, explica.

Para os produtores, a consequência pode ser significativa

“Para o produtor, isso pode significar aumento no custo de produção e, em situações mais críticas, dificuldades de acesso ao insumo no momento ideal do plantio, pois as janelas são curtas e determinadas por fatores climáticos”, observa o presidente da Faeb, Humberto Miranda. 

Na Bahia, o tema ganha peso adicional devido à importância do agronegócio no oeste do estado, uma das regiões agrícolas mais produtivas do país.

“No caso da Bahia, que possui importantes polos agrícolas como o Oeste do estado, essa questão é especialmente relevante, já que culturas como soja, milho e algodão têm forte dependência de fertilização adequada para garantir produtividade e competitividade”, ressalta Miranda.

Outro fator de atenção envolve o possível aumento do preço do petróleo, fenômeno historicamente associado a conflitos no Oriente Médio.

O reflexo imediato aparece no custo do diesel, no transporte rodoviário e no frete marítimo internacional — elementos fundamentais para o funcionamento do agronegócio.

“O aumento do preço do petróleo tem efeito direto sobre toda a cadeia produtiva do agronegócio. Ele impacta o custo dos combustíveis utilizados nas operações agrícolas, no transporte da produção e também no frete marítimo internacional”, afirma o presidente da Faeb.

Segundo ele, em estados com grande extensão territorial e forte dependência logística, como a Bahia, qualquer alteração nesse cenário pode afetar a competitividade da produção agrícola.

“Em um estado como a Bahia, onde parte significativa da produção percorre longas distâncias até os portos ou centros consumidores, qualquer elevação no custo logístico pode reduzir margens e afetar a competitividade do produtor”, explica.

Além disso, muitos insumos utilizados na agricultura têm ligação com a indústria petroquímica, o que amplia os efeitos de eventuais aumentos no preço da energia.

“Diversos insumos agrícolas possuem relação direta com a indústria petroquímica, o que pode ampliar ainda mais a pressão sobre os custos de produção”, acrescenta.

Exportações também entram no radar

O mercado internacional de grãos também pode sentir reflexos caso o conflito avance ou provoque sanções comerciais e alterações nas rotas de comércio.

O Irã, por exemplo, figura entre os compradores relevantes de produtos agrícolas brasileiros, especialmente milho.

Segundo Humberto Miranda, fatores geopolíticos podem influenciar a dinâmica das exportações.

“O mercado internacional de grãos é bastante sensível a fatores geopolíticos. O Irã é um comprador relevante de produtos agrícolas brasileiros, e qualquer escalada do conflito pode gerar impactos indiretos nas rotas comerciais, nos sistemas de pagamento internacional ou mesmo na dinâmica das importações daquele país”, afirma.

Ainda assim, o dirigente ressalta que o Brasil possui posição estratégica no mercado global de alimentos.

“O Brasil possui uma base diversificada de compradores e ocupa posição estratégica como fornecedor de alimentos. Isso significa que, embora possam ocorrer ajustes momentâneos nas rotas comerciais, o agronegócio brasileiro tende a manter sua relevância como fornecedor confiável para diversos mercados, especialmente na Ásia e na Europa”, avalia.

A região oeste do estado concentra uma das agriculturas mais tecnificadas do país, com elevada produtividade e forte inserção no comércio internacional.

Segundo a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), o setor acompanha os desdobramentos da crise internacional com cautela, reforçando a importância da previsibilidade e da estabilidade para o planejamento agrícola.

A produção agrícola depende de decisões tomadas com meses de antecedência, incluindo compra de insumos, financiamento da safra e planejamento logístico.

Por isso, qualquer instabilidade global tende a influenciar as estratégias do setor. Ainda assim, especialistas apontam que o Brasil possui vantagens competitivas importantes, como disponibilidade de terra, tecnologia agrícola e capacidade de ampliar mercados.

A atual tensão internacional evidencia uma característica central do agronegócio moderno: sua profunda integração com o comércio global.

O que acontece em rotas marítimas no Oriente Médio, em portos asiáticos ou em mercados financeiros internacionais pode ter reflexos diretos nas lavouras brasileiras.

Para produtores, cooperativas e exportadores, acompanhar o cenário geopolítico tornou-se parte do planejamento agrícola.

Enquanto o conflito no Oriente Médio segue sem desfecho claro, o agronegócio brasileiro observa atentamente seus possíveis desdobramentos — especialmente em estados como a Bahia, onde o campo movimenta bilhões de reais e sustenta milhares de empregos.




Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia